“Uma visita pastoral abre portas, e isso é evangelizador.”
Após uma semana intensa de Visita Pastoral a São Tiago, em Almada, estivemos à conversa com o Pe. Marco Luís, pároco, que partilha connosco como foi esta Visita e os desafios que a mesma traz à sua paróquia.
Que balanço é que é possível fazer desta visita pastoral aqui à Paróquia de Santiago?
Uma expressão muito comum, no passado domingo já, no penúltimo dia de visita pastoral, que se experimentava, que se sentia, que se partilhava, no sentido que as pessoas estavam felizes, o sr. bispo estava feliz e eu também estou feliz. Acho que é uma boa expressão para caracterizar esta visita pastoral.
Mas, claro, ao mesmo tempo comentava com o Sr. Bispo que uma visita pastoral é um ponto de chegada, mas ao mesmo tempo um ponto de partida. Não interessa há quanto tempo esteja um pároco numa paróquia, eu julgo que é sempre um ponto de chegada, com menos ou mais tempo, e inevitavelmente um ponto de partida. Eu diria um ponto de chegada face ao caminho feito em comunidade.
Se nós pensarmos, por exemplo, nos quatro catecúmenos que já são Filhos de Deus batizados, nos 25 crismados, nos 10 adultos que fizeram a primeira comunhão, foi um ponto de chegada, mas mal seria se não fosse um ponto de partida. Isto também se aplica à relação com as instituições onde fomos, culturais, recreativas, às escolas, no comércio, em alguns lugares com uma relação mais intensa, noutros nem por isso, mas sempre, novamente, um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, um ponto renovado de partida, mais ou menos, consoante os lugares. E, por isso, esta marca do Nosso Bispo celebrativa, com a paróquia, mas depois também esta dimensão de sair.
Como foram essas saídas?
Julgo que destacava o facto de que o Sr. Bispo nunca foi sozinho, nem foi simplesmente acompanhado pelo pároco, foi acompanhado por pessoas da comunidade dos vários setores. Por exemplo, sempre que foram visitas a instituições de âmbito social, como a Santa Casa da Misericórdia, a Associação de Pensionistas Reformados da Almada, ou até noutras dimensões da vida do dia-a-dia da terra e que o âmbito social, do centro social paroquial e não só, está presente, fazia todo o sentido que a diretora-geral do centro, que membros da direção estivessem, ou professores ligados às escolas, ou pessoas, claro, também com a disponibilidade própria dos horários, porque estamos a falar de visitas que, habitualmente, ocorreram, basicamente, ocorreram entre as 10 da manhã e as 10 da noite.
Acabou por ter ali a visita em pausa uns dias por causa da ida ao Consistório…
Também sentimos esta bênção e sentimos que não foi uma interrupção, quer pela forma como o Sr. Bispo colocou desde o início a ida ao consistório, quer depois, não só pelas mensagens que trouxe e pela presença que fez com que, inclusive, muitas pessoas que encontrava nos lugares mais, das periferias, como se diz, do centro de Almada, denotava-se esta grande alegria de estar com o Sr. Bispo e esta proximidade do Sr. Bispo com o Papa, que era trazida, que era manifestada e que era reconhecida, mesmo para pessoas que têm outras vivências. Eu julgo que isso é evangelizador.
E sempre a palavra, eu ia dizer a palavra Esperança, mas acho que antes da palavra de esperança marcava a Escuta. Quando sentávamos com as pessoas, a primeira atitude sempre era de escutar. Quem são as pessoas? O que é que elas têm a partilhar? No concreto, seja do Conselho Pastoral, seja dos órgãos próprios do Centro Social Paroquial, ou até dos movimentos e grupos paroquiais, nas escolas e em todos estes lugares, na Junta de Freguesia ou na Câmara Municipal, sempre uma dimensão muito acentuada de escutar, de escutar.
Depois, claro, está o Nosso Bispo sempre a deixar uma palavra de incentivo, de esperança e muitas vezes formativa. Por exemplo, destacar nos bombeiros, foi uma autêntica formação que o Comandante agradeceu imenso e o Presidente também. E destaco aqui os bombeiros não pela excelente relação que temos, pelo menos há uma década, no que me diz respeito, essa excelente relação, mas por este pormenor que foi sublinhado de bombeiros que estavam de folga e vieram de propósito, bombeiros que vinham de serviços e deixavam de almoçar para estar num encontro com o Senhor Bispo.
Voltando ao princípio de tudo, quais foram as preocupações a montar a visita pastoral, tanto a nível do programa e dos encontros que tiveram? E como é que foi o acolhimento das entidades não-religiosas à vida e ao desejo do Bispo de estar presente?
Em primeiro lugar, sendo a primeira paróquia, com o Conselho Pastoral fez-se um esboço do que seria a visita pastoral. Na tradição, e foi dito imensas vezes ao Sr. D. Américo, que aqui na Diocese, os 17 anos do Sr. D. Gilberto Reis foram marcados por várias visitas pastorais. E tirando talvez a última, porque já conhecia bastante bem a realidade, eram visitas muito parecidas com estas.
Tive a oportunidade de organizar outras visitas pastorais, também como secretário do Sr. D. Gilberto na altura e depois como pároco. E, por isso, há aqui uma dimensão que o Sr. D. Américo sublinhou, mas para nós isso não foi novidade. Queria encontrar dentro da paróquia, nas estruturas da paróquia, as pessoas que estão e os que não estão, mas que estão no território da paróquia.
Então, esse seria o primeiro sublinhado. Quanto à segunda questão, mais uma vez, não há como os exemplos muito claros e concretos. Tinha algum receio relativamente a tantas visitas, o que são as agendas de tantas pessoas, tantas instituições, como é que isso seria.
E, claro, o pároco não trabalha sozinho, mal seria, nem nos preparativos, nem na vivência, nem no dia-a-dia. E fiquei agradavelmente surpreso, porque não tinha dado nenhuma indicação nesse sentido, quando disseram, quem teve esse encargo, o núcleo de preparação da visita pastoral comigo, que ligaram para as instituições a dizer o dia e a hora que o Senhor Bispo ia passar, e todos confirmaram o dia e a hora que lhes era proposto.
E depois a seguir, com a alteração que houve devido ao Sr. D. Américo ter que ir um dia mais cedo, houve necessidade de alterar praticamente um dia e pouco, e a resposta foi novamente igual. Foi novamente como na primeira hora. Estamos cá, e isso diz tudo.
Acho que isso diz tudo na vontade de acolher. Talvez não tenhamos ido a mais lugares porque não tenha havido mais tempo. Mas isso acaba por ser também aquilo que falava do tal ponto de partida.
Ou seja, estes encontros servem também para, de alguma forma, dar aqui um impulso a uma renovada relação da Igreja também, não apenas para dentro, mas para fora…
Claro, até porque estamos sempre a caminho. Não podemos dizer que terminamos o caminho. Pensando, por exemplo, na Escola António da Costa, com um acolhimento extraordinário, e que vem na linha do que foi uma Jornada Mundial da Juventude de 2023, quando a paróquia acolheu 1400 jovens, e digamos que a pequena parte do acolhimento foi em famílias. A grande parte foi em estruturas da própria paróquia e em estruturas como a Escola António da Costa, e isso estava na memória, passado dois anos e meio, e a manifestação das portas estarem abertas. Depois, outro exemplo: houve uma instituição que aproveitou a visita e pediu a bênção das instalações todas, que irei fazer, e muito feliz.
São exemplos de que vimos, com o caminho feito, e que o novo caminho que uma visita pastoral lança, volto a dizer, estejamos há menos tempo ou há mais tempo, é muito interessante.
Porque eu até diria, não sei, não tenho um fundamento muito claro, ou pode ser também por limites, por limites nossos, mas que fiquei com a ideia clara, que uma visita pastoral abre portas, e isso é evangelizador. Isso é tudo evangelizador, e isso é tudo positivo. Claro que é bastante cansativo, faz parte, ainda para mais termos nós um bispo que tem o ritmo que tem. É bastante cansativo, mas depois fica a alegria, a paz, a esperança, partilha. Também ficam, é bom dizer, preocupações recolhidas no tecido social dos desafios.
Algumas até desconhecidas?
Algumas desconhecidas e algumas até em instituições que não são manifestadas de forma clara pelo nível institucional que possam comportar. Às vezes mais afirmado, ou até praticamente nada afirmado, mas o que o Sr. Bispo recolheu e que eu acompanhava, o pároco e as pessoas da paróquia, recolhemos também isso. São coisas menos boas, mas a visita não é só para ver coisas boas. O Sr. Bispo dizia que não há paróquias perfeitas, não há comunidades perfeitas, não há lugares perfeitos.
Finalmente, o que é que fica desta visita para os próximos tempos? Ou seja, que desafios foram lançados, que caminho foi visto e que caminho precisa-se continuar?
Olha, antes de mais, julgo que fica este testemunho, esta certeza de que Deus nos visita e que permanece connosco. Isso foi muito tempo de Natal, não é? O Natal, esta vinda de Deus, a presença de Deus e a vinda do Nosso Bispo, foi uma concretização dessa visita de Deus Nosso Senhor que nos visita e permanece connosco em cada dia.
E depois, em várias reuniões, mais da Comunidade Paroquial, o sublinhar da importância da Sagrada Escritura, o sublinhar da importância da formação, o sublinhar ou a constatação e o reforçar dos órgãos de comunhão na paróquia e dessa comunhão, de que fazemos o caminho juntos. E também esta dimensão missionária, constantemente esta palavra de ir, ir, com o testemunho de que o Nosso Bispo veio para ir ao encontro de pessoas que, habitualmente, se calhar, é mais difícil encontrarmos, e como que chamando-nos a ir ao encontro, impulsionando-nos a ir ao encontro, neste ardor missionário, é também um desafio que fica fortemente, julgo eu. Depende de cada coração, de cada um de nós.
A Visita Pastoral também é uma grande sementeira e que veremos frutos mais tarde, que agora ainda nem somos capazes de antever, e que no tempo de Deus veremos esses frutos.
Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Lara Franquelim Alves e Ricardo Perna

